Impacto económico negativo do CETA

Os defensores do CETA enfatizam os seus benefícios económicos, como o crescimento económico devido ao aumento do volume de comércio e investimento externos.

No entanto, os quatro estudos sobre o impacto económico do CETA, encomendados a centros de investigação com ligações a grandes grupos de empresas, baseiam-se num modelo de análise de impacto económico [1] que pressupõe pleno emprego e distribuição neutra de rendimentos em todos os países, não considerando na sua análise os impactos sociais e ambientais. Nestas análises baseadas no modelo EGC, as economias do Canadá e da UE adaptar-se-ão instantaneamente e sem custos à reforma do comércio, e qualquer aumento no desemprego ou perda de renda agregada, mesmo temporariamente, é descartada de antemão.

A alegação repetida pelos media, Governo e Comissão Europeia, de que o CETA representaria um lucro anual de 12 mil milhões de dólares é falsa.

Esta análise dos supostos benefícios económicos do CETA exige uma avaliação fundamentada em premissas de modelagem mais realistas.

O único estudo oficial de impacto económico do CETA, realizado pela Comissão Europeia em 2008, prevê um ganho total no Produto Interno Bruto (PIB) equivalente a cerca de 10,5 mil milhões de euros para a UE e 8,4 mil milhões de euros (ou cerca de 12 bilhões de dólares canadianos para o Canadá [2].

Isto representa ganhos de aproximadamente um décimo de um ponto percentual do PIB da UE e três quartos de um por cento do PIB para o Canadá. Esses ganhos apenas se veri cariam ao longo de muitos anos, mesmo que os mesmos eles sejam alcançados, o seu impacto será impercetível nas estatísticas nacionais anuais. De acordo com a análise do impacto económico do CETA, realizada com o recurso ao Modelo de Política Global das Nações Unidas (GPM) [3], os resultados são bem diferentes dos mencionados anteriormente.

A mesma demostra que o CETA resultará em perdas líquidas em termos de emprego, rendimento pessoal e PIB no Canadá e na UE. Em particular, cerca de 230 mil postos de trabalho poderão desaparecer na UE e Canadá, sendo que desapareceriam 200 mil na UE, e agravaria a actual fragilidade do mercado laboral da UE.

A longo prazo, os aumentos salariais mais lentos transferirão uma parte adicional da renda nacional do trabalho para os proprietários de capital. Consequentemente, os trabalhadores poderão perder rendimentos anuais médios de 1776 euros no Canadá e entre 316 e 1331 euros na UE, dependendo do país. A insuficiência de procura agregada, alimentada pelo aumento do desemprego, também prejudicará a produtividade e causará perdas de bem-estar acumuladas de 0,96% e 0,49% do PIB no Canadá e na UE, respectivamente.

Além de prejudicar o PIB, esses efeitos induzidos pelo CETA irão aumentar a desigualdade e as tensões sociais num contexto político já complexo e volátil.

Os estudos quantitativos que, por construção, ignoram riscos comprovados relacionados com a liberalização abrangente, não representam uma base adequada para informar os formuladores de políticas sobre as implicações económicas do CETA. São necessárias abordagens alternativas à modelação, que reconheçam os riscos da liberalização do comércio e possam quantificar o seu impacto e custo, de modo a fornecerem informações signi cativas sobre as prováveis consequências do CETA.

Se os decisores políticos adoptarem o CETA, logo terão uma única opção para reactivar a procura agregada diante das crescentes tensões sociais: aumentar os empréstimos privados, possivelmente através de uma nova desregulamentação
financeira, abrir a porta a uma dívida insustentável e instabilidade financeira.

Em vez de repetir os mesmos erros, os decisores políticos deverão antes estimular a actividade económica através de esforços políticos coordenados e duradouros que apoiem os rendimentos do trabalho e procurem formas de iniciar uma transição económica muito necessária.


[1] Modelo de análise económica de equilíbrio geral computacional (EGC) do Global Trade Analysis Project (GTAP)

[2] Avaliação dos custos e benefícios de uma parceria económica entre UE-Canadá, estudo realizado pela Comissão Europeia e Governo do Canadá , pág. 56 : http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2008/october/tradoc_141032.pdf

[3] O GPM, modelo de análise económica construído pelas Nações Unidas, é um modelo que opera com dados econométricos reais e actualizados. O mesmo considera o impacto no comércio (de bens manufaturados, produtos primários, energia e serviços), preços, fluxos financeiros e balanços nacionais e internacionais. Diferenciando-se do modelo EGC adoptado pelos estudos de impacto do CETA encomendados pela Comissão Europeia, o GPM também considera nos seus resultados o impacto económico no mercado laboral, população, migração e ambiente.