Dia 28 de Agosto, o ministro do Ambiente francês demitiu-se lapidarmente: “Não quero continuar a mentir-me a mim próprio. Não quero dar a ilusão de que a minha presença no Governo significa que estamos à altura dos desafios (ambientais) e, por isso, decidi demitir-me”, anunciou Nicolas Hulot. E foi-se.

Macron, que fez da luta contra as mudanças climáticas uma das suas bandeiras, tinha prometido durante a campanha eleitoral objectivos ambientais ambiciosos, como a proibição do glifosato ou a redução para metade da produção de energia nuclear em França até 2025.

O balanço de Hulot, ao fim de pouco mais de um ano em funções, é explícito: “Já começámos a reduzir o uso de pesticidas? A resposta é não. Já começámos a fazer alguma coisa contra a perda da biodiversidade? A resposta é não. Já começámos a fazer algo para a preservação dos nossos solos? A resposta é não.”

Embora reconhecendo que a França fez muito mais pelo ambiente que outros países e que foram dados “pequenos passos” – como o abandono do projecto para a construção de um novo aeroporto nos arredores de Nantes, ou o fim da exploração de hidrocarbonetos em território francês – Hulot considera que esses “pequenos passos” não são “suficientes” para combater os enormes desafios das alterações climáticas. O mandato de Hulot foi marcado por concessões, meias vitórias e derrotas, como o adiamento da meta de redução em 50% da utilização de energia nuclear para gerar electricidade até 2025 e a entrada provisória em vigor do Acordo de Livre Comércio entre a União Europeia e o Canadá (CETA).

Para esta decisão de Hulot terão também contribuído as secas devastadoras que se registaram na Europa e noutros países ao longo do Verão às quais, mais uma vez, foram dadas respostas políticas esquivas ou nulas.

“Além do burburinho político inevitável, espero que esta decisão encoraje todos a pensar e a mudar”, escreveu Nicolas Hulot no Twitter.

Hulot exige a verdadeira mudança de paradigma de que estes governos hipócritas só falam da boca para fora. O que em Portugal se demonstra, por exemplo, com a ratificação do CETA (o acordo comercial UE- Canadá) ou a obstinação do governo, através do Ministério do Mar, em manter a licença atribuída para o furo de prospecção de petróleo em Aljezur.

O poder dos Lobbys é soberano.


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