“Nunca pensei que o TTIP pudesse parecer mais assustador, mas quando falei com a responsável da UE encarregue do assunto, então percebi…”

(…)No seu cargo de Comissária do Comércio, Cecilia Malmström ocupa uma posição de poder no aparelho da UE. É ela que dirige a CE no capítulo do comércio internacional (…) em representação dos 28 EM, e são os seus funcionários que negoceiam a finalização do acordo com os EUA.

Na minha reunião com ela, falei-lhe da enorme oposição ao TTIP em toda a Europa. No último ano, mais de 3,3 milhões de pessoas assinaram a petição contra o tratado. Milhares de manifestações e protestos em todos os estados, incluindo a última grande marcha em Berlim que reuniu cerca de 250.000 pessoas no fim de semana passado, são um sinal claro. As 500.000 assinaturas só no Reino Unido também.

Malmström reconheceu que o tratado está a levantar uma alargada e apaixonada oposição em todo o lado. Mas, quando lhe perguntei como é que continuava a sua activa promoção do mesmo, perante esta massiva oposição pública, ela respondeu: ”Não foram os povos europeus quem me concedeu o meu mandato”.

Mas então, de onde vem o seu mandato? Oficialmente, os Comissários deveriam actuar de acordo com os governos europeus. Contudo, a CE conduz as negociações à porta fechada, longe dos deputados e do público. Funcionários públicos do governo inglês admitiram que são deixados no escuro sobre as negociações e que isso dificulta o seu trabalho.

Concretamente, um novo relatório de War on Want acaba de revelar que Malmström recebe as suas ordens directamente dos lobbies corporativos que enxameiam Bruxelas. A CE não faz segredo de que é guiada pelos lobbies da indústria como BusinessEurope ou European Services Forum (…). Não admira portanto que as negociações do TTIP sejam conduzidas para servir os interesses corporativos em vez das necessidades dos cidadãos.

Dentro em breve, os britânicos serão chamados a decidir se querem ou não permanecer na UE (…). Eu acredito numa Europa dos povos, numa Europa social onde possamos trabalhar com outros, dentro ou fora do continente, para construir um futuro comum para lá dos interesses mesquinhos de uma pequena elite.

(Foto de um carro alegórico com um modelo do parlamento alemão envolvido por uma faixa a dizer “democracia” e, dentro do edifício, uma bomba negra chamada TTIP à qual Merkel acende alegremente o rastilho)….

A pergunta do referendo significa que vamos (os ingleses) dizer se queremos permanecer sujeitos às instituições europeias, incluindo a CE que ninguém elegeu.

Como o povo grego já aprendeu por amarga experiência, essas instituições não vão tolerar qualquer reforma ou desvio da ortodoxia da austeridade permanente ditada pelas corporações….

Malmström acaba de demonstrar o enorme desprezo que, ela e os seus comissários nutrem pelos povos europeus. O aviso está dado.

Comentários do blog

– Os povos europeus andam a ser vendidos como pipocas às grandes corporações. Estas não oferecem nada em troca e não procuram outra coisa senão o lucro para os tais 1%, pagando baixíssimos impostos (…). O papel da UE é tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres….

– Com a sua declaração, Malmström expressou em poucas palavras tudo o que há de errado com o tratado…

– A UE não vai mudar. Na sua essência há um total deficit democrático e, portanto, só há uma maneira de sair dessa ditadura…

– O sr. Juncker nunca escondeu a sua opinião de que os acordos e compromissos em curso na UE (….) têm de ser protegidos do escrutínio público, com mentiras, se necessário: “Quando as coisas são sérias, temos de mentir”, disse numa conferência em Maio de 2011, acentuando que a política monetária da eurozona deve ser discutida em “debates secretos, no escuro…”. Deu até a entender que a política da eurozona era incompatível com a democracia: “Todos sabemos o que temos de fazer. Só não sabemos como seremos reeleitos depois de o fazermos”, (2014)…

– Já em 2005 Juncker tinha predito que a UE iria ignorar quaisquer rejeições populares, dizendo a propósito do referendo sobre a Constituição Europeia :” Se a resposta for SIM, nós vamos continuar e se for NÃO, nós vamos continuar na mesma…”

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/eu/1087/4230/Jean-Claude-Juncker-profile-When-it comes-serious-you-have-to-lie.html

-Todos os maiores projectos europeus como o Eurotunel são criados pelos grandes grupos de lobbies corporativos reunidos em torno da European Round Table.

John Hilary, Independent, 14/10/2015

http://www.independent.co.uk/voices/i-didn-t-think-ttip-could-get-any-scarier-but-then-i-spoke-to-the-eu-official-in-charge-of-it-a669059.html

Tradução e adaptação de José Oliveira